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Oculus | por Eneléo Alcides

por Eneléo Alcides

Antropólogo


O que você vê? A pergunta de Albertina é uma provocação, irrespondível, ou melhor, possibilita tantos enfoques quanto um caleidoscópio em movimento contínuo. Não vemos nada linearmente. Vemos em camadas e em deslocamentos. Falar sobre o que vemos é sempre improvisar.


Oculus persevera questões tão antigas como: Somos resultado do quê? O que deixamos ou levamos para o futuro? Não questiona quem é, mas sim, o que é o criador e o que é a criatura. Para um olhar inadvertido, pode transparecer enigmas ultrapassados, mas enquanto houver almas inquietas, essa busca reverbera. Descobertas e angústias de um tempo tão breve para habitar sobre a terra.


Entre matrizes, humus e murmúrios, a deusa hindu Maya gera Buda num lance divino, enquanto a Águia (animal ou celestial) observa o álbum de retratos dos animais recriados pelo homem através de diversos procedimentos de manipulação genética. ¿Seriam matrizes celestiais, naturais e artificiais? Os reinos das deusas Flora e Fauna precisam dividir espaço com uma recém nascida deusa, concebida pela artista para tutelar, além das bactérias, protozoários e fungos, também os vírus, até então órfãos de um reino, mas, finalmente, adotados pela deusa maior, articuladora da vida e da morte e protetora dos seres invisíveis.


À margem das vaidosas manipulações das deusas, os co-criadores homens e mulheres engendram seus jogos, negociações interpessoais, seduções e traições. A pietá chora enquanto o selfie clama likes. As idades da vida brincam com nossas viçosidades e decrepitudes. Somos sempre impotentes? Não se trata de um inventário do passado, presente e futuro; nem da taxonomia de seres vivos e celestiais, mas de um grande desfile, no qual a atuação das personagens não deve ser dada por suas representações simbólicas, mas pelos olhos do público. São os olhos de cada observador, que empresta seu contraponto a essa conversa.


A beleza dos desenhos de Albertina se afigura como uma armadilha. Se nos deixarmos envolver pela sedução dos corpos (divinos e humanos) ou pelos nostálgicos elementos da natureza, somos capturados nas teias de seus pensamentos, seus interesses e suas inquietações. Mas sua plasticidade é mesmo generosa com o público. Descarta os medos do deslumbramento e não se prende à clichês contemporâneos. Constrói Arte em sua plenitude. Com porosidades deliciosas com o universo dos espetáculos. Afinal, além de artista visual, Albertina já foi apresentadora de TV, vivenciou o teatro e foi a primeira mulher carnavalesca de Florianópolis. Toda essa bagagem cênica e espetacular se desdobra em suas soluções plásticas.


Por vezes a sua sedução pode ser também uma cilada. Afinal, só no Olimpo permanecemos imortais. Ao dissecar ciclos de concepção e finitude, Albertina expõe vanitas que alertam sobre o envelhecimento inevitável. Rituais de nascimento, florescimento e morte do corpo, da beleza, da natureza, dos sonhos. Um jogo com o divino e com as adversidades humanas. Diante deste cenário de alumbramentos e tragédias, Albertina expressa publicamente o que lhe interessa: experienciar e amar. Ou seja, aposta num mundo mais sensível.


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